terça-feira, 5 de agosto de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

HORA DO POENTE



Hora do poente!
Quem não vê o vermelho
que se lhe solta das veias?
A cor sangue de cerejas
alargada até ao horizonte 
sobre a manta a perder o azul?
Transformação?
Melancolia?

Ou excitação de olhos de brisa?

sexta-feira, 7 de junho de 2013


Vai mulher com teus olhos de urze
e eleva-te no rasto dos gansos selvagens.
Leva o teu menino imberbe
a pervagar  nas insígnias do sonho.
No cimo da montanha
espera-te um barco para velejar a tua missão.
Se água não houver
mantém à tona do olhar, o impossível;
põe depois o teu menino no barco
e leva-o às costas na rota das estrelas.
Ou deixa que dos olhos te rebente
um rio de águas em combustão.
Aí em cima
 desafia os demónios a cegar-te
frente à constelação de peixes
que respira veloz  no seio do limo.
Só então deves regressar ao chão com teu menino
e suster para sempre a força da vida num sonho
para quando o fôlego das mãos
se despenhar à boca dos dias.


terça-feira, 24 de julho de 2012

RESPIRAR A SEDA DA VIDA


Escuto-me no que sobrou do silêncio do rio
esfaqueado pelos braços da inquietude
na pressa de respirar a seda da vida.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

RENÚNCIA


Renuncio um véu de ternura
para não me trilhar
Renuncio a fragrância da magnólia
para não me extasiar
Renuncio gaivotas em mancha no céu
para não lhes copiar o voar
Renuncio palavras sonhadas
para não ter que as relembrar
Renuncio beijos
para os meus lábios não se queimarem
Renuncio a luz da lua
para não me deixar nela ofuscar
Renuncio-me a mim
por tudo isto renunciar.



terça-feira, 26 de junho de 2012

IMPOSSIBILIDADE


Se eu fosse capaz 
de fazer sumir a raiz da minha inquietação…
Passar para além do cabo da desordem
chegar serenamente perto do horizonte
e  não encontrar lá
este desejo anónimo e sôfrego do coração.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

POR ISSO NÃO GOSTO DE AMORAS


A lua havia de cair um dia
no chão mais próximo.
Num lugar que havia de desvelar a palavra.

Havia de tombar
era irremediável.
Sei-o agora.

Mas resvalou
desgovernada
roubada por outras solicitações.

As esplanadas
os bancos de jardim
os livros
passaram então a ser-me ardis.
De traição em punho.

Por isso
já nada se parece com a glória antiga
largada agora noutra morada.

Depois o intragável escuro.
Um escuro que não me deixa saber
o elementar e o secundário.
Entardeceram ambos.

Já nada sei
depois que o mar lambeu a areia
e desfez a palavra.
Se é que alguma vez soube.
Se é que alguma vez a palavra existiu.
E se existiu foi num instante.
Num muro de silvas
entre amoras falsas.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

FOSSE EU...



 Fosse eu vento para dar pressa ao veleiro
mesmo que em navegação perigosa.

Fosse eu paleta coroada da luz do sol
para recuperar a cor perdida da palavra em flor.

Fosse eu eternamente noite para respirar o teu sono
e eternamente manhã para te ver orvalho
soletrando um lírio branco.

Fosse eu sereia para te prender ao mar
e  num só instante ler
um poema de ternura no teu olhar.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O INSTANTE DA PALAVRA

No papel vos entrego a palavra
Permito-vos o sentido
E mais
A liberdade do ritmo
da entoação
da voz
do tempo em que  a respirais.

A liberdade da invenção para a metáfora.

A partir deste momento desconheço
se a plavra ainda me pertence
Sei que a  libertei
para o mar ou para o espaço
Para fora de mim
Para sempre
Para nunca

Talvez que o que é vento
seja agora o meu respirar
O que é mar seja água
Talvez que o que é rio
seja agora vala extensa
onde vos deixo a palavra a correr
Apetecida
Renegada
E de súbito
a palavra foi um instante
Ou talvez não.

quarta-feira, 28 de março de 2012

NEM SEMPRE O SILÊNCIO ME DEVASTA


Depois de convocadas memórias acesas de cerejas
o silêncio há-de alimentar as horas
ou a espera dos peixes virem à tona
como os dias esperam a posse do entardecer.
Como os dedos esperam o cheiro do vocabulário
traduzido pelo desejo da flor a abrir ao meio dia.
Nessa hora não haverá lugar para peixes
de olhos fundos e desvidrados.
Antes os haverá de luz
nadando no cimo das ondas
e acentuando nas guelras o silêncio
como alimento do que ainda há-de vir.