sábado, 27 de junho de 2015

MEMÓRIAS IRREVERENTES



Há-de vir a madrugada
com tuas mãos a prenderem
as ondas do mar.

Na cerejeira brava
hão-de os meus olhos encontrar
borboletas perseguindo
a ternura do teu olhar.

É que o peito ganha asas
quando o vento acende memórias
de luas ao fundo da rua.


sábado, 21 de março de 2015

FRÁGEIS



Tão frágil é a borboleta
com suas asas de leveza
e tão forte é quando voa
sob o peso do céu
cinzento.

Tão fortes somos nós
na carne e nos ossos.
Porém tão frágeis
quando caminhamos por baixo
 de um bocadinho de céu
apagado
ou sob o peso
de um sonho desfeito.


sábado, 25 de outubro de 2014

NEGAÇÃO



Queria escrever um poema daqueles
que só os pássaros sabem ler
com seus olhos de voo.

Um poema vulcão em que a lava
tivesse a força do cheiro das rosas de maio.

Um poema de murmúrios de mar
de búzio de luz
em bebedeira de luar.

Um poema em que as palavras
recolhessem a seda das estrelas.

Um poema aceso de vermelho
a tocar a raiz da cerejeira.

Mas adio a hora de ver pássaros 
a voar na lua
e também não sei
onde estão as cerejeiras. 



terça-feira, 5 de agosto de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

HORA DO POENTE



Hora do poente!
Quem não vê o vermelho
que se lhe solta das veias?
A cor sangue de cerejas
alargada até ao horizonte 
sobre a manta a perder o azul?
Transformação?
Melancolia?

Ou excitação de olhos de brisa?

sexta-feira, 7 de junho de 2013


Vai mulher com teus olhos de urze
e eleva-te no rasto dos gansos selvagens.
Leva o teu menino imberbe
a pervagar  nas insígnias do sonho.
No cimo da montanha
espera-te um barco para velejar a tua missão.
Se água não houver
mantém à tona do olhar, o impossível;
põe depois o teu menino no barco
e leva-o às costas na rota das estrelas.
Ou deixa que dos olhos te rebente
um rio de águas em combustão.
Aí em cima
 desafia os demónios a cegar-te
frente à constelação de peixes
que respira veloz  no seio do limo.
Só então deves regressar ao chão com teu menino
e suster para sempre a força da vida num sonho
para quando o fôlego das mãos
se despenhar à boca dos dias.


terça-feira, 24 de julho de 2012

RESPIRAR A SEDA DA VIDA


Escuto-me no que sobrou do silêncio do rio
esfaqueado pelos braços da inquietude
na pressa de respirar a seda da vida.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

RENÚNCIA


Renuncio um véu de ternura
para não me trilhar
Renuncio a fragrância da magnólia
para não me extasiar
Renuncio gaivotas em mancha no céu
para não lhes copiar o voar
Renuncio palavras sonhadas
para não ter que as relembrar
Renuncio beijos
para os meus lábios não se queimarem
Renuncio a luz da lua
para não me deixar nela ofuscar
Renuncio-me a mim
por tudo isto renunciar.



terça-feira, 26 de junho de 2012

IMPOSSIBILIDADE


Se eu fosse capaz 
de fazer sumir a raiz da minha inquietação…
Passar para além do cabo da desordem
chegar serenamente perto do horizonte
e  não encontrar lá
este desejo anónimo e sôfrego do coração.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

POR ISSO NÃO GOSTO DE AMORAS


A lua havia de cair um dia
no chão mais próximo.
Num lugar que havia de desvelar a palavra.

Havia de tombar
era irremediável.
Sei-o agora.

Mas resvalou
desgovernada
roubada por outras solicitações.

As esplanadas
os bancos de jardim
os livros
passaram então a ser-me ardis.
De traição em punho.

Por isso
já nada se parece com a glória antiga
largada agora noutra morada.

Depois o intragável escuro.
Um escuro que não me deixa saber
o elementar e o secundário.
Entardeceram ambos.

Já nada sei
depois que o mar lambeu a areia
e desfez a palavra.
Se é que alguma vez soube.
Se é que alguma vez a palavra existiu.
E se existiu foi num instante.
Num muro de silvas
entre amoras falsas.